Menos é mais


Embora conviva comigo mesma há mais de trinta anos, ainda admiro a minha capacidade em mudar de perspectiva, de ver as coisas por lentes diferentes e, assim, mudar de ideia/opinião sobre como viver a vida.

Se 2016 foi realmente um ano tão tenebroso como tenho escutado muitos dizerem pelas ruas, não saberia responder do ponto de vista do senso comum. A verdade é que, para mim, 2016 foi um ano silencioso e introspectivo – muito mais do que os últimos (quase) dois anos -, e quanto mais para dentro de mim eu me dirigia, mais percebia que era de menos que eu precisava.

Um antigo sonho tem batido na porta do meu coração boêmio ultimamente e, desta vez, sinto que estou melhor preparada para atendê-lo… O antigo sonho de pegar a estrada de carro e me reintegrar com a Mãe Natureza.

A verdade é que, neste que foi um ano tão quieto em meu mundo interior, mal consegui manter minha sanidade com o caos da urbanização. Eu não consigo mais me sentir em paz no meio de tanta buzina, poluição, violência, gritaria e tiroteio (sim, eu moro perto do que chamo de “zona de guerra”). Eu preciso de férias prolongadas da movimentação das grandes cidades.

É claro que, me conhecendo bem, não ousaria dizer que quero ir embora para nunca mais voltar – até porque eu evito ao máximo usar as palavras “nunca mais” tendo em vista que não sabemos como será do dia de amanhã. Mas definitivamente preciso de algum tempo fora.

Então comecei a pensar nas possibilidades… nos lugares que quero ir, nos equipamentos que preciso, nos gastos e por aí vai. E percebi que para pegar a estrada, não precisamos de muito. E percebi também, dando uma rápida olhada ao meu redor, que mais da metade das coisas que tenho não são usadas. Ou seja, eu tenho apenas porque vivo em um apartamento… algumas coisas são completamente inúteis e servem apenas para decorar. Ok, eu entendo a necessidade de ter um ambiente com a cara da gente, de verdade, e até amo isso. Mas sejamos práticos: por que diabos precisamos de mais um porta-treco com qualquer coisa que não está sendo usada dentro? Ou por que precisamos de uma peça de roupa que está mofando no closet só pela possibilidade de um dia talvez usar em alguma ocasião? Coisas desse tipo não fazem sentido manter ocupando espaço.

Parei um bom tempo para avaliar isso tudo e me dei conta de que não preciso de tudo isso. Porque, como diz a música do Eddie Vedder, Society, “você pensa que você tem que querer mais do que precisa”, e isso está tão enraizado em nossas mentes que estamos consumindo o planeta sem nos preocuparmos com as consequências.

Para minha admiração, percebi que (mais uma vez) eu estava moldando minha perspectiva de vida para um lugar mais ligado as nossas raízes como espécie. Nossos corpos não vivem neste planeta… eles são parte dele. E quando você se vê como parte do planeta, uma conexão nova acontece.

Neste ano, eu fiz a minha reconexão com Gaia. Agora, meus planos envolvem viver em harmonia com essa parte maravilhosa de mim. E isso inclui voltar as origens… tanto eu quanto os meus animais de estimação.

O primeiro passo foi dado logo no começo do ano: alimentos industrializados foram banidos das nossas refeições em casa (digo em casa porque quando comemos na rua nem sempre sabemos ao certo o que estamos ingerindo). O segundo passo – mais recente – foi a alteração dos produtos de higiene pessoal e limpeza tradicionais para os produtos orgânicos. O terceiro passo será uma “faxina” na casa. E o quarto passo será uma longa viagem de carro com os bichanos – a princípio pelo Brasil, depois pela América do Sul.

Sim… será uma viagem minha, da Wendy, da Edwiges e do – mais recente membro da minha família felina – Luke. Para isso, algumas adaptações serão necessárias, tanto para mim quanto para eles. Mas o que não está faltando é inspiração para o meu desejo se realizar. Quem sabe em 2018 a jornada comece… Talvez até antes.

O que eu sei, por enquanto, é que preciso de menos… menos barulho, menos violência, menos “encarceramento residencial”, menos poluição, menos gente urbanizada na minha volta falando apenas dos problemas do mundo e do quanto o ano foi terrível. E talvez assim eu encontre mais… mais paz, mais tranquilidade, mais equilíbrio, mais ar puro, mais risadas com meus bichos, mais canto dos pássaros, mais natureza, mais estradas cercadas por paisagens de tirar o fôlego.

Eu mal posso esperar…

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