De volta para casa


Já sinto os ventos da mudança se aproximando, cada vez soprando mais forte. Logo, não vou conseguir manter os pés firmes no chão e serei carregada pela ventania até onde já deveria estar – de onde nem eu ou você deveríamos ter saído algum dia. De volta para casa.

Nasci e cresci em um centro urbano. Provavelmente, não muito diferente de milhões de pessoas, certo? Minha conexão com a natureza se limitava aos meses de verão em família na praia, quando eu insistia em ficar no mar até virar peixe – o que nunca aconteceu, mas nunca me impediu de tentar. Eu queria, naquela época, ser uma sereia. Queria ter a capacidade de respirar embaixo d’água para poder mergulhar fundo na imensidão do oceano, apreciando cada segundo daquele silêncio calmo que habita em suas profundezas. É claro que eu sabia que me transformar numa sereia era impossível. Mas isso também nunca me impediu de sonhar com o oceano como lar.

Naqueles anos, com consciência de que morar sob as águas do mar não era cabível, determinei que, então, um dia moraria numa ilha – de preferência deserta. Isso, sim, era um sonho possível. Afinal, eu só precisava encontrar uma ilha deserta para morar. Quão difícil isso poderia ser?

Os anos passaram e minha ilha deserta foi ganhando um novo cenário, até acabar se transformando em uma casa cercada com piscina, um jardim e algumas árvores frutíferas.  No fim, minha ilha acabou virando um apartamento no meio de uma selva de pedras.

Com o passar do tempo acabei compreendendo meus sonhos de menina. Eu queria ser uma sereia porque o oceano representava aquilo que meu espírito almejava: harmonia e conexão. O oceano é a analogia mais próxima em nosso mundo para representar a casa do nosso espírito; o lugar de onde viemos. Tudo no oceano faz nosso espírito lembrar suas origens, desde o canto mais profundo, escuro e frio até a superfície agitada e quente. Nós mesmos, de certa forma, somos uma analogia para o oceano.

Você consegue perceber o padrão de conectividade aqui? Nós somos uma analogia para o oceano que, por sua vez, é uma analogia para a casa do nosso espírito. E isso não se limita apenas ao oceano, nosso espírito e nosso corpo. Nós estamos, todos, em algum nível, conectados uns com os outros e com todas as coisas. Mas isso não significa que, como espécie, tenhamos plena consciência disso.

Fomos longe demais. Nos afastamos muito das nossas origens como ser humano. Ignoramos nossos instintos naturais por muito tempo. Agora é tempo de voltar para casa. Chegou a hora de, finalmente, escutarmos o que nossos espíritos estão tentando nos dizer desde que éramos crianças e ceder aos seus caprichos, porque, em nossa essência, sabemos que a sociedade que o homem construiu está longe de ser uma civilização.

A Terra é naturalmente um planeta selvagem. Se tivesse que descrever uma ideia de como nossa casa deveria ser sem a intervenção da ganância por poder do homem, diria que é algo extremamente semelhante ao que o filme Avatar apresenta. Um lugar onde os humanos, os animais e a natureza coexistem em harmonia e conexão, onde as espécies não destroem sua casa, muito pelo contrário, elas ajudam o planeta a nutrir e prosperar, consequentemente recebendo exatamente o mesmo em troca.

O que nós vemos em nossas grandes cidades hoje em dia – e que estamos vendo desde que o homem se autoproclamou senhor do mundo – passa muito longe do que deveríamos ser em relação ao nosso lar. Não estou dizendo que devemos voltar para as cavernas, por favor. Mas, como disse antes, os ventos da mudança estão soprando e estão cada vez mais perto e mais forte. Uma nova tribo de pessoas conscientes da nossa verdadeira natureza estão, finalmente, arregaçando as mangas e voltando para casa, para a terra, para a natureza.

Eu não estou indo para o fundo do oceano nem mesmo para uma ilha deserta. Mas as plantas crescendo em vasos de plástico e barro na varanda do meu apartamento são claramente um sinal de que a natureza está me chamando. E, desta vez, não vou negar seu chamado. Vou pegar carona nos ventos da mudança e voltar para casa. Porque é disso que meu espírito e meu corpo físico precisam… conexão com o mundo além dos cinco sentidos. Conexão que só se encontra no contato diário com a Mãe Natureza, lá onde o caos barulhento do homem não alcança.

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